sexta-feira, 29 de junho de 2012

Doze anos


No dia 29 de junho de 2000, eu acordava depois de uma noite de muitas dores pra ir à minha consulta periódica de pré-natal. A barriga estava muito grande, a coluna já não aguentava tanto, e o Dr. Julio decidiu que, para a nossa segurança, aquele era um bom dia pra você sair do bem bom e enfrentar o inverno aqui fora.

Vai pra casa, toma uma sopa leve, um belo banho, liga pra todos os seus familiares e depois vai para o hospital. Não sei a que horas chegarei, mas seu bebê vai nascer hoje.

Essa foi a terceira vez em que você me pregou um susto - desses que você dá até hoje quando desce a pista com skate, vai sozinho jogar bola no parque ou pula destemidamente na piscina. Tinha muito medo da cesariana e saí chorando do consultório. Pena que, naquela época, você não podia ainda falar “Calma, mãe!” como você faz quando eu te olho torto agora.

O primeiro susto, Rubinho, foi quando eu descobri que você existia. Primeiro a menstruação atrasou. Depois senti vontade de comer banana como se nada mais existisse. Então eu enjoei de beterraba de uma hora pra outra. Só aí me convenci de que deveria fazer o teste. Quando vi o POSITIVO, bem grande, eu chorei. Chorei de medo, filho. Eu tinha só 17 anos, ainda estava no colégio. Tinha medo do que os outros iam pensar, de decepcionar meus pais, de não termos dinheiro pra te sustentar. Mas o susto durou tanto quanto dura uma descida de rampa com o skate, e logo eu estava muito feliz.

O segundo foi poucas semanas depois, quando eu tive que ficar internada, pois estava muito fraca de tanto enjoo que eu tinha. Entrei em convulsão e os médicos disseram que eu precisava repousar bastante pra não correr o risco de te perder.  Aquilo me apavorou, pois você já era tudo pra mim.

O começo da gestação foi bem complicado, mas quando os enjoos passaram, eu me diverti muito com você na minha barriga. Foram vários desejos – você já era o mais exigente da família desde aquela época. Mousse de maracujá, sorvete de chocolate com chantilly, azeitona preta, macarrão da bisa, rosquinhas de Catiguá e abacaxi. Muito abacaxi. Graças a você eu parei também de tomar Coca-cola, e eis um favor que jamais poderei retribuir. Eu não me preocupei com peso, ou forma física. Eu era a grávida mais feliz que eu conhecia e, por isso mesmo, me sentia linda como nunca. Você sempre me fez muito bem, filho.

Pois naquele dia 29 de junho eu fiz exatamente o que o médico mandou. Inclusive a parte de ligar pros parentes. Tanto que havia, aproximadamente, umas 20 pessoas naquele hospital quando você nasceu. E, como o médico demorou a chegar, deu tempo de vir todo mundo.

Seu pai teve medo, e eu entrei sozinha na sala de parto. O Dr. Julio chegou com um rádio debaixo do braço e disse que só trabalhava com música. Eu achei ótimo, pois eu só vivo com música. E enquanto o procedimento acontecia, eu cantava, desse jeito que você me vê cantar enquanto eu faço comida: completamente desafinada, mas feliz. De repente eu ouvi um chorinho, e o doutor trouxe você pra perto de mim. E foi a coisa mais linda que eu já vi na vida. Eu chorei de lavar a alma. O doutor chorou junto, disse que estava orgulhoso de ver uma mocinha tão novinha e tão feliz com seu bebê. Naquele dia, enquanto terminava a cirurgia, ele me disse algo que eu nunca esqueci: 

Lembre-se sempre de que ele é uma pessoa que veio ao mundo através de você, mas ele não é seu. Cuide, eduque, ame, mas não se esqueça de que ele é um ser humano como você, e não sua propriedade. E não se importe com o que vão dizer sobre a sua idade. Vocês terão muito mais tempos juntos, e estarão muito próximos um do outro. Eu tenho certeza de que você será uma ótima mãe.

É o que tenho tentado fazer, Rubinho. Compartilhar a vida, o pouco que eu sei e o muito que vou aprendendo, para que você seja uma pessoa legal. Você tem sido uma criança incrível, e está se tornando um moço bacana demais. Desde que eu soube da sua existência a minha vida só melhorou. Você é um ótimo irmão, primo e sobrinho. Todas as crianças e adolescentes da família têm você como exemplo. Os adultos sabem que podem sempre confiar em você. Seus colegas e professores são só elogios. E eu tenho um filho que me obedece e respeita, mas também me conhece, acolhe e ajuda como um grande amigo.

Hoje você faz doze anos. A idade que eu tinha quando conheci e me apaixonei pelo seu pai. Estou aqui sentada com as minhas caixas de recordações, emocionada vendo mais um ciclo se completar. E a conclusão a que chego é que a cada ano que passa é melhor ainda ser sua mãe.

Feliz aniversário, filho.

Eu te amo.

4 comentários:

Fabiano Bonfiglio disse...

:..)

Anderson Figueredo Gomes disse...

:..) 2

Juliana Moreira disse...

Nossa, chorei lendo, rs *-*
Parabéns pro seu filho, lindo texto

Cams disse...

Chorei que nem louca e isso é um tanto engraçado, e eu me sinto no dever de copartilhar minha história.

Toda menina sonha em encontrar o príncipe, se casar, ter filhos e tudo mais. Eu sempre fui diferente. Sempre fui romântica e me apaixonei intensamente duas vezes antes de conhecer meu namorado. Esses dois primeiros foram grandes amigos e foi bem difícil lidar com isso, mas fiz sempre questão de não deixar isso afetar nossa amizade. Eles sabiam como eu me sentia, o primeiro deles chegou a ser meu pseudo-namoradinho de Internet (em 2003, e viemos a nos conhecer pessoalmente só em 2010 <3). O engraçado é que meu namorado se tornou melhor amigo e namorado em um período menor que duas semanas, quando nos conhecemos através de um amigo em comum no Formspring na época da febre - quando eu me distraía enquanto esperava o resultado do vestibular.
Foi difícil por um tempo porque eu via ele sonhando em se casar comigo e formar uma família, enquanto eu simplesmente não tinha essa vontade, apesar de amá-lo. Muitas conversas, algumas discussões (a gente não costuma brigar, costuma argumentar) e, então, depois de 10 meses e apenas um encontro, o do meu primeiro beijo num aeroporto lotado olhando pra nós dois, eu decidi terminar. Foram os quatro dias mais difíceis da minha vida, e eu decidi enfrentar todas essas coisas das quais eu nunca tive vontade (talvez um certo receio sem motivo). Desde então, tenho me esforçado pra não ter medo de crianças e desenvolver um pouco esse lado "materno" - que eu sempre tive com os animais (daí o fato de eu ser veterinária). O engraçado é que nunca consegui chamar meus bichinhos de filhos, sempre foram meus irmãos - exceto por um peixe que eu tive no último ano e com cujo adoecimento eu sofri muito. Hoje eu sei que eu quero isso, tenho meus filhos planejados PRO FUTURO (com a distância, nem que eu quisesse pra já ia dar certo .-.) e os esperarei com muito amor. Não sei se eu vou acabar surtando uma hora ou outra, mas bom... acho que isso é normal, né? hahahaha

Desculpa o super hiper ultra comentário, mas eu realmente achei necessário compartilhar isso. Sua história me tocou muito, porque eu sempre te vejo falando dele no Twitter e tal, e conheci mais sobre você e sua história. Parabéns pro Rubinho e que você, ele e toda a sua família tenham a maior felicidade do mundo!