terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mãos iguais

Se essa mulher não é MUITO LINDA,
não sei quem pode ser.
Quando a gente pensa que um concurso de beleza não pode ser mais fútil, eis que uma edição do Miss Universo surge para despertar assuntos sérios. A reação de algumas pessoas ao fato de uma mulher negra ser eleita o símbolo da beleza mundial foi nada menos do que estarrecedora. A Veja - sempre ela! - chegou ao 10º subsolo do fundo do poço ao publicar um texto descrevendo a cerimônia, realizada aqui no Brasil, como um "churrasco na laje", uma "festa com tubaína". Não que churrasco na lage regado a tubaína seja ruim (eu adoro, pra dizer a verdade), mas não precisa ser especialista em análise do discurso pra perceber o preconceito e o tom jocoso que permeiam o texto.

Coincidentemente, ao chegar agora há pouco em casa, encontrei o Alex às voltas com textos da literatura moçambicana, e me emocionei ao reencontrar algumas das linhas mais lindas que já li. Ainda chateada com tantas demonstrações de boçalidade, reli o texto cujo trecho reproduzo abaixo, e creio ser uma das melhores respostas a quem ainda vê na cor da pele um problema.

As mãos dos pretos
Luís Bernardo Honowana


A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falamos disso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela me disse foi mais ou menos isto:
"Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho. Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os por a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituados a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exatamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes por que é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem é apenas obra dos homens... Que o que os homens fazem é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que, se tiverem juízo, sabem que antes de serem qualquer outra coisa, são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos".
Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos. quando fugi para o quintal, para jogar a bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.


Luís Bernardo Honowana é um autor moçambicano, e este conto está no livro Nós Matamos o Cão Tinhoso.

Um comentário:

Conta do Abreu disse...

Estamos no séc XXI, mas ainda não há respeito com a mãe África e seus filhos. Espero viver pra presenciar o fim dos porcos racistas e ver a real liberdade em ação, que é a do pensamento.
Belíssimo texto. Parabéns e mantenha a esperança. Grande beijo.