quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Two players, two sides

Hoje, 22 de setembro de 2010, faz seis anos que Lost estreou nos EUA. Uma das imagens mais emblemáticas da série foi a luta do bem contra o mal, o certo contra o errado, os outros contra nós, o branco contra o preto. E uma das maiores lições que nós, fãs, tiramos de tudo o que vimos, é que essas dicotomias simplesmente não existem. São meras ilusões. Relações humanas são sempre muito mais complexas do que parecem.

Mas esse post é pra falar de outro grande amor meu, o Santos. Há poucos minutos, foi confirmada a demissão do técnico Dorival Júnior. A comoção está feita. No Twitter, todo mundo tem sua opinião a dar, dizendo que Neymar o derrubou. Como se a situação fosse simples assim: de um lado, o técnico, de outro, o jogador. Mas que tal usarmos mais de dois neurônios pra analisar os fatos que culminaram nisso tudo?

Durante o primeiro semestre, o Santos arrebentou. Nem preciso ficar descrevendo a quantidade de gols e vitórias, porque isso todo mundo já sabe. Como consequência, os jogadores, que meses antes eram garotos a pedir permissão aos pais pra irem ao shopping,  viraram estrelas. O centro das atenções? Neymar. Virou sex symbol juvenil, garoto propaganda de incontáveis marcas, boneco, convidado de todos os tipos de programa de TV, rádio e internet. O clube, lógico, incentivou tudo isso - porque no mundo do futebol, nem só de vitórias gordas e jogadas bonitas vive um time. Ter um marketing poderoso é essencial. E Neymar, com apenas 17 anos, ganhou status de galinha de ovos de ouro.

No segundo semestre, a coisa muda bastante de figura. Após a (sofrida) conquista da Copa do Brasil, o time passa por um desmanche básico, como já era de se esperar. Saem Robinho e André, ficam Neymar e Ganso. Não demora muito até Paulo Henrique se contundir e toda a nação santista receber, estarrecida, a péssima notícia de que não poderíamos contar com ele por tenebrosos seis meses. Do quadrado mágico goleador, sobrou apenas o caçula Neymar.

Vocês que estão me lendo já tiveram 17, 18 anos, certo? Lembram-se do quanto se sentiam sufocados, injustiçados, desesperados, revoltados e deprimidos por coisas importantíssimas como: professor de matemática passando 4 folhas de problemas de Geometria Analítica de lição de casa, mãe proibindo de ir viajar com aquela turma meio doida da rua de baixo, namorado(a) fuçando no seu celular? Pois é. Chegou o momento em que o ADOLESCENTE Neymar sucumbiu às constantes agressões sofridas dentro de campo e à pressão de ser o novo Pelé, a salvação da seleção brasileira,  o jogador que quebrou o triste paradigma dos atletas brasileiros de migrarem para o Norte na primeira oportunidade. Ligou, literalmente, o famoso botão FODA-SE e deu aquele lamentável espetáculo no jogo contra o Ceará. Errou, sem dúvidas. Mas nada que eu, você, seu irmão, sua mãe e qualquer ser humano já não tenha feito nessa vida. A diferença é que todas as atenções estavam voltadas pra ele.

É aí que entra a grande responsabilidade da diretoria. Não me parece que em nenhum momento o bem estar do rapaz tenha sido uma prioridadeo. O Santos investiu alto no Neymar, desde a mais tenra infância. As manobras que permitiram que ele ficasse aqui envolvem muitos zeros à direita e muitos interesses. A superexposição trouxe retorno financeiro, mas também danos psicológicos. Era uma bomba prestes a explodir.

Depois da casa assaltada, coloca-se o cadeado. Mas o prejuízo já existe. Neymar foi corretamente punido. O técnico solicitou que, além da multa em dinheiro, ele fosse também afastado do grupo. Nos bastidores, diretoria e comissão técnica concordaram em deixá-lo de fora do jogo contra o Guarani, e reintegrá-lo para o confronto seguinte, contra o Corinthians. Foi o presidente Luís Álvaro quem foi a público anunciar o afastamento do atleta. E agiu corretamente, porque decisões de ordem administrativa devem ser tomadas pela diretoria.

Exatamente por esse motivo, a grande pisada de bola foi ter deixado a cargo do técnico Dorival Jr. anunciar a volta de Neymar. Assim como o afastamento, quem teria de resolver a reintegração do atleta é a diretoria. Tivesse o presidente vindo a público anunciar que Neymar estava de volta e enfrentaria o Corinthians, eu estaria dormindo a essa hora. Mas não. Deu o cordeiro para o lobo tomar conta.

Dorival Jr., seja para mostrar autoridade, seja para forçar sua própria saída, descumpriu o acordo no últmo momento, num claro ato de insubordinação - vejam só, mesmo "crime" pelo qual Neymar está sendo execrado pela opinião pública. Aproveitou-se do momento em que o jogador é tido como "Monstro", e comprou a briga, certo de que sairia vitorioso de alguma maneira - fosse como o homem forte que dita as regras no Santos, fosse como o brilhante técnico injustiçado.

A diretoria, por sua vez, viu-se presa na teia que ela mesma teceu. Diante do que aconteceu na tarde de hoje, uma postura deveria ser tomada. Alguém não sairia imune dessa. E a decisão, óbvia, foi por preservar a jóia, fruto de tanto investimento e esforço. Poderia ter esperado e resolvido este assunto logo após o clássico - o que talvez fosse mais sensato. Mas acho compreensível a atitude do presidente. Tardiamente, ele percebeu que tinha que mostrar que quem manda no Santos não é o Neymar, nem o Dorival, e sim a diretoria, democraticamente eleita pelos sócios.

Agora, analisando friamente, vejamos o saldo disso tudo:

  • Neymar - Não ganha nada e ainda perde muito. Com Dorival ou sem Dorival, ele jamais seria mandado embora, ou perderia seu lugar de destaque, pelo simples fato de que ele é a maior aposta do Santos desde Pelé. Só que agora ele está sendo mais uma vez responsabilizado por algo que não fez. Não foi ele quem pediu, ou sequer provocou, a demissão do técnico. A causa da saída do Dorival foi sua insubordinação a uma determinação da diretoria. Mas não é isso que está sendo dito aos quatro ventos. Na boca da galera, Neymar é praticamente um Mussolini. Se já estava difícil aguentar a trollagem, a tendência é piorar e MUITO.
  • Santos - Só tem a perder. Às vésperas do clássico contra o nosso maior rival, que também é um confronto direto na disputa pelas primeiras colocações do campeonato, nos vemos de cabeça para baixo. E a gestão do presidente Luis Álvaro ainda fica com a imagem abalada.
  • Dorival - Sai dessa com 2 milhões no bolso, fama de bom moço injustiçado e emprego garantido no clube que quiser.

Portanto, leitor paciente que chegou até aqui, pense duas vezes antes de ver tudo como Neymar mau x Dorival bom. Aquele que é tido como vítima, quase um mártir, foi o ÚNICO que saiu ganhando com a história toda. E, de uma vez por todas, não foi o Neymar quem tirou Dorival do cargo, ok? Assim como em Lost, a análise superficial desse confuso episódio pode levar a um entendimento equivocado. O processo é complexo demais pra ser simplesmente explicado como a luta do bem contra o mal.




2 comentários:

qualquergordotemblog disse...

Eu tava pensando em uma resposta para ti, mas acho que o Vinicius Duarte tem uma explicação mais racional e melhor que a minha. Só acho que vc pegou muito pesado com o Dorival. O cara já teve que engolir (acertadamente) o Ganso, iria engolir o Neymar tb.
http://comfelelimao.wordpress.com/2010/09/21/quem-e-que-manda-nessa-josta/

Conradoo disse...

Nota relevante: estamos falando de futebol. No Brasil. Os fatos têm importância menor. Vale a imagem e o consenso - fluido, porque apaixonado.

O "acordo" que Dorival teria descumprido (reintegrar Neymar depois do jogo contra o Bugre) não foi celebrado num estádio lotado, muito menos transmitido em rede nacional. Eu não vi. Ninguém viu. Ninguém sabe. Inclusive duvido da existência dele.

O que ficou, a imagem - sempre ela - mais forte é a de um moleque mascarado, racista, preconceituoso e bom de bola, que provocou a demissão de um profissional sério e vencedor.

Daqui a 3 meses Neymar vai embora. E o Santos voltará à dura realidade de lutar pra ficar entre os 8, em qualquer campeonato que dispute. O presidente voltará a ser apenas mais uma tentativa frustrada de renovar a cartolagem.

E não digo isso com satisfação. Mesmo sendo são-paulino, gosto do Santos e não queria ver uma cagada dessa acontecendo.