segunda-feira, 13 de abril de 2009

A velha falácia do "isso não é Português"

Depois de (muitos) anos na faculdade de Letras, uma das maiores lições que tive foi sobre o Preconceito Linguístico. É assustador descobrir que passamos a vida convencidos da falácia de que Língua Portuguesa é aquela que aprendemos no colégio, e que qualquer manifestação diferente daquilo é errada – ou, para os mais radicais, não é Português.


Matéria do jornal Destak-São Paulo de 13/04/09


Agora vamos lá: se um cidadão, que nasceu no Brasil e viveu toda a sua vida aqui, se comunicando perfeitamente com todos à sua volta, não sabe Português, quem é que sabe? Ou será que quase 80% dos alunos da rede pública de São Paulo são estrangeiros e eu não sei?


Como eu sempre costumo dizer para todos os meus alunos: Língua não é Gramática. Pelo contrário, a segunda surgiu para analisar e descrever o funcionamento da primeira. Logo, a Gramática não dita regras, ela apenas observa aquilo que já acontece na Língua.


As crianças começam a falar por volta do 12º mês de vida. Quando chegam aos três anos de idade, em geral, elas são plenamente capazes de formular períodos completos, inclusive com subordinações, de usar os mais diversos tempos verbais, de empregar preposições, de fazer concordâncias de gênero, número, etc. Basta entrar numa sala de maternal na escolinha mais perto e prestar atenção no que os pequenos dizem. Garanto que todos vão se fazer entender muito bem, assim como você a eles.


Eis que essas crianças fofinhas crescem, vão para o Ensino Fundamental e começam a aprender as regras de acentuação, separação de sílabas, pontuação. Por volta dos 10 anos de idade começam a aprender Morfologia. Pouco tempo depois, vem a Sintaxe. E no meio desse bolo geralmente vem o trauma. Isso porque muitos professores, assim como a mídia (o exemplo acima não foi à toa, visto que o Destak é um jornal diário, gratuito e de enorme tiragem) insistem em dizer para aquelas criaturas que tudo o que eles sabiam, desde que começaram a balbuciar seus mamá e papá, não é Português.


Oras, claro que é! Todas as línguas são compostas por muitas variações, que dependem de vários fatores, como, por exemplo, idade, região, grupo, classe social, etc. Aquela que faz parte dos manuais é a que chamamos de norma culta. É importante dominá-la porque ela se faz necessária em muitas situações. Mas é ainda mais importante saber que ela é apenas UMA dentre MUITAS variações da nossa língua.


Dizer que a norma culta é a única que pode ser considerada Língua Portuguesa é mais uma das inúmeras formas de preconceito que enfrentamos no Brasil. E muito violenta, diga-se de passagem, pois tira do indivíduo algo que lhe é muito caro: sua identidade como membro de uma sociedade. Com sua identidade enfraquecida, a noção de cidadania fica também abalada.


Portanto, dizer que quase 80% dos alunos da rede pública, falantes de Português desde os 2 anos de idade, não dominam a própria língua é, senão uma demonstração de ignorância, uma tremenda mentira. Espero que tenha ficado claro que eu não estou discutindo o resultado da avaliação, mas sim a maneira como a notícia foi formulada. Fiquem atentos com esse tipo de afirmação e pensem duas vezes sobre que ideologia defende um órgão de imprensa que a publica.


OS: Para ficar imune, recomendo uma dose quinzenal da excelente coluna do Prof. Sírio Possenti no Terra Magazine.

7 comentários:

alex kruppa disse...

Adorei teu post. Temos mais é que mostrar indignação com este instrumento de repressão educacional.

Infelizmente, num país em que a política, a religião, a cultura e os meios de comunicação de massa são preconceituosos, fica cada vez mais difícil sanar esta doença.

Enquanto o Brasil der atenção ao gramatiquês self-service de gente como Pasquale Cipro Neto, teremos grandes problemas pela frente.

Anônimo disse...

De nada pelo link no Terra Magazine. E pelo recorde de audiência.

Juliana Teixeira disse...

Não entendi, mas tudo bem.

daniel disse...

concordo com o que tu escreveu. a propósito, te convido a ler um artigo recente que escrevi (e observar alguns comentários preconceituosos que ele suscitou): http://www.amalgama.blog.br/11/2008/destruindo-mitos/

Juliana Teixeira disse...

Obrigada, seu link vai entrar agora nos meus favoritos!

Anônimo disse...

Rola a barra do navegador, bocó.

Juliana Teixeira disse...

Acabei de ficar sabendo que o blog foi linkado no Terra Magazine. Pena que eu lerdei e não vi.

Muito obrigada e desculpe pela "bocoice"!